Opus: análise de Prism Peak para Switch 2
Em OPUS: Prism Peak, conhecemos Eugene, um homem de 40 anos que se sente perdido e culpado por tudo que deu errado em sua vida. Ele revive seus arrependimentos: as brigas entre seus pais, sua carreira fracassada como fotógrafo, um casamento que não deu certo e um café que não deslanchou. Para Eugene, tudo isso é resultado de suas falhas, e ele se vê à deriva, sem rumo. Mas há uma luz em meio a tanta escuridão: o amor que ele compartilha com seu avô e sua paixão pela fotografia. Essa relação é um alívio e uma forma de expressão para ele, mas, eventualmente, Eugene abandona a câmera, acreditando que é um fracasso.
A câmera, no entanto, é a alma de Prism Peak. Ela não só serve como a principal mecânica de jogo, mas também como uma ferramenta narrativa que conta a história de Eugene. Durante sua jornada, ele entra em um mundo mágico chamado Dusklands, onde animais falam e uma jovem chamada Ren sonha em voltar para casa, que fica no topo de uma montanha. Eugene acaba nesse mundo depois de um acidente de carro a caminho do funeral de seu avô. O ambiente tem uma vibe que lembra os filmes do Studio Ghibli, com personagens que poderiam facilmente fazer parte de “A Viagem de Chihiro” e paisagens que evocam a beleza do campo japonês, tão apreciada por Hayao Miyazaki.
Em Dusklands, encontramos um javali que é maquinista de trem e um pangolim tímido, mas confiável. Nossa missão é explorar e tirar fotos, e isso é feito de forma bem simples. Equipado com a câmera amada de Eugene e um caderno, passo o tempo decifrando a língua deste mundo e tentando entender os animais que o habitam. Às vezes, coloco fotos no caderno que correspondem a um personagem, ou escrevo sobre a história dos Dusklands enquanto adiciono murais nas páginas. Tirar fotos é fácil, mas conforme avançamos, desbloqueamos opções para mudar lentes, ajustar a velocidade do obturador e até ferramentas que mostram se a foto está muito clara ou escura. Embora algumas lentes sejam mais estéticas, a maioria traz um desafio interessante, fazendo com que o jogador preste atenção em detalhes, como a distância do objeto e se a lente está suja.
O jogo nos obriga a observar e explorar, já que as fotos têm um propósito. Além do diário, precisamos interagir com as Firebowls, que apresentam enigmas que devem ser resolvidos com as fotos correspondentes. Podemos também coletar sementes para desbloquear páginas extras ou lentes, e até coletar cinzas quando fazemos escolhas erradas. Os totens de madeira que representam os animais se reúnem ao redor do fogo, trazendo seus próprios desafios e pedidos, que ajudam a preencher nosso livro. É fácil perder de vista os assuntos que precisamos fotografar, e completar essas tarefas é essencial para alcançar o final verdadeiro do jogo. Em um momento, avancei na história sem ter explorado tudo, e em Prism Peak não dá para voltar a áreas anteriores, o que me fez perder a chance do final verdadeiro bem cedo.
Cada foto que tiramos, cada objeto que observamos, serve como um lembrete da vida de Eugene. Nem sempre são lembranças agradáveis. Há morte, brigas e conexões perdidas. Cada imagem congelada no tempo representa algo que ele tentou esquecer. Embora muitas dessas tarefas sejam opcionais, a experiência de preencher esse álbum enriquece a narrativa e o desenvolvimento de Eugene. As fotos mais importantes aparecem em seus sonhos, onde ele entra nos Dusklands; essas vinhetas em preto e branco destacam os momentos significativos de sua vida, conectando tudo que vivemos em cada lugar.
OPUS: Prism Peak lida com emoções de forma intensa. Eu ri, sorri e, em certos momentos, até chorei. Mas as emoções não são forçadas. Elas surgem naturalmente à medida que conhecemos mais amigos animais, tiramos mais fotos e compreendemos Eugene e Ren. A beleza e o charme de Prism Peak me levaram a uma jornada de autoconhecimento, e, em várias ocasiões, me vi atravessando cenas com um nó na garganta e lágrimas nos olhos. Era como se eu soubesse o que viria em seguida, e que tanto eu quanto Eugene precisaríamos encarar cada cena.
Pela primeira vez, senti que estava jogando e vivendo um filme perdido do Ghibli. O jogo vai além da estética e dos personagens peculiares; em termos de temas e emoções, poderia facilmente entrar na biblioteca de Miyazaki. Muitos jogos afirmam ser inspirados no Ghibli, mas a desenvolvedora Sigono realmente capturou essa essência sem parecer uma cópia. As imagens transmitem parte da história, mas Prism Peak é ainda mais deslumbrante em movimento. As paletas de cores suaves ajudam a unir a natureza exuberante com as ruínas das cidades que exploramos. Quando as coisas ficam mais sombrias, a transição lenta de tons suaves para cores escuras gera um clima de tensão.
Infelizmente, a versão para Switch 2 tem alguns problemas. Apesar de a maioria do jogo ser visualmente impressionante, a taxa de quadros é inconsistente. Em cenas mais movimentadas, como em áreas com grama e árvores balançando, a taxa caía para menos de 20fps, enquanto em ambientes internos, conseguia ultrapassar os 50fps. Essa oscilação pode ser um pouco distraente em algumas sequências de perseguição. As sombras dos personagens ficam um pouco irregulares e algumas texturas são borradas, o que compromete um pouco a experiência. Felizmente, a desenvolvedora já está trabalhando em um patch para resolver esses problemas, que, segundo eles, são reconhecidos. OPUS: Prism Peak merece ser visto e vivenciado da melhor maneira possível. Apesar de ter momentos tristes, não diria que é um jogo triste; é uma das experiências mais espirituais e belas que já joguei. Vale a pena esperar pela atualização.
