Astonish é muito eficaz: como Pokémon me ensinou a amar palavras
Eu tinha apenas seis anos quando me deparei com um movimento misterioso em Pokémon Yellow no meu Game Boy Color. “Dugtrio usou Fissura. É super eficaz!” Fiquei boquiaberto. O que era aquilo? Fissura? Um peixe? Essa não foi a primeira, nem a última vez que Pokémon me apresentou a novas palavras. A série é conhecida por ter um vocabulário rico, mas, na verdade, sempre gostei disso. Pokémon me acompanhou na infância e, junto com a leitura de livros, me ajudou a desenvolver um amor pelas palavras.
Imagine só perguntar aos seus pais, aos seis anos, o que “guilhotina” significa (com certeza pronunciei errado) depois que um Krabby me atacou com suas garras enormes. Além de ler sobre a Revolução Francesa, em que outra situação eu teria essa curiosidade? Sempre que encontrava um ataque que não entendia, ficava perguntando. O que é um “Raio Aurora”? E o que significa “Constringir”?
Após algumas consultas com meus pais e muitas horas folheando dicionários, percebi que esses nomes eram escolhidos de forma bem intencional. Por exemplo, “Constringir” é um movimento que reduz sua velocidade, já que você está envolvendo a criatura. “Raio Aurora” faz referência às luzes do norte ou do sul, associadas ao tipo gelo. E todos sabemos o que é uma guilhotina, certo?
Conforme fui jogando, descobri novas palavras e significados. Em Pokémon Silver, aprendi que “perecer” não é uma palavra comum no dia a dia, mas que faz todo sentido quando a Lapras da Misty me derruba. Em Pokémon Sapphire, fiquei surpreso ao ver meu Combusken “vacilar” após um ataque de Whismur. Aprendi até sobre Aromaterapia – que, infelizmente, não cura todos os problemas da vida real.
Com o tempo, deixei de perguntar tanto para a família e fui me aventurando pelo mundo dos jogos. A evolução dos gráficos do Game Boy para o Game Boy Advance tornou tudo mais claro. Assim, entendi que “Dança Teeter”, movimento do Spinda, mostrava que o oponente estava balançando para confundir meu Gardevoir.
E não eram apenas os ataques que me faziam aprender. Os itens também tinham significados que me ajudavam a entender o mundo. A série virou um “Antídoto” para a minha ansiedade e um “Elixir” para a minha curiosidade. De repente, coisas que eu não gostava não precisavam mais “ir embora”; eu podia “Repelir” elas. É claro que eu teria encontrado a maioria dessas palavras mais tarde, mas, como criança impressionável, o que aprendi em Pokémon complementou meu amor pela leitura e pela escrita.
Nunca teria descoberto que Fúcsia era uma cor ou tipo de flor se não tivesse passado horas na Zona Safari ou correndo pela cidade para derrotar Koga ou Janine. E repare: cada cidade de Kanto tem o nome de uma cor ou tom, que é representado na aparência da cidade no jogo (especialmente no Game Boy Color).
À medida que a série evoluía, eu também ia descobrindo novos termos e descrições que, de outra forma, nunca teria encontrado. Por exemplo, “Coronete” em Mt. Coronet de Sinnoh – quem precisa usar essa palavra na vida real? Mas agora eu tinha mais uma ferramenta para usar quando fosse escrever profissionalmente.
Hoje, como adulta, essa paixão pela linguagem nunca me abandonou. A cada nova geração, adoro explorar os nomes dos Pokémon para entender por que eles se chamam Alomomola ou Typhlosion. Iniciei com nomes simples como Ekans e Arbok, mas a criatividade se expandiu muito. O Pokémon Ariados tem seu nome inspirado em Ariadne, a figura grega que ajudou Teseu a escapar do labirinto. E quem não ama um bom trocadilho, como no nome Sudowoodo? A equipe de localização fez um trabalho incrível!
Com o tempo, minha maneira de nomear os Pokémon também mudou. Na minha infância, eu me contentava com nomes como Croc para meu Feraligatr ou Blaze para meu Torchic. Mas, na quarta geração, comecei a usar cores de criaturas, palavras em italiano para balão ou inverno, e até tipos de flores que combinavam com o design dos Pokémon. E claro, sempre tem o nome do meu gato que não pode faltar.
Essa paixão pela linguagem que Pokémon despertou em mim continua viva. Eu sabia que juntar palavras sofisticadas aprendidas em um jogo não ia me fazer ganhar amigos, mas, para uma criança de seis anos, jogar Pokémon Yellow me fez perceber que os videogames podiam ser mais do que apenas diversão. Eles podiam ensinar. E isso é uma parte importante da experiência de jogar.
