O melhor conceito de jogo de todos os tempos: desenvolvedores falam sobre Pokémon
Muita coisa aconteceu com Pokémon nos últimos 30 anos. A franquia já lançou nove gerações principais, passou por sete consoles diferentes e gerou uma infinidade de spinoffs, além de um jogo de cartas que nunca esteve tão popular, filmes, séries de TV, produtos e até um parque temático. Não dá para negar que é uma das maiores franquias de entretenimento do mundo, com um reconhecimento global que até mesmo a Disney invejaria. Para muitos, como eu, é difícil imaginar a vida sem Pokémon.
E não sou só eu que sinto isso. Muitos desenvolvedores de jogos que criam títulos inspirados em Pokémon também têm uma conexão profunda com a franquia. Capturar e batalhar com criaturas é um formato tão envolvente que anualmente novas estúdios se arriscam nesse gênero. O DNA da Game Freak aparece em tudo, desde roguelikes focados em combate até sims de fazenda tranquilos. O que mais se destaca nesses jogos é a paixão genuína por Pokémon, que não é apenas uma cópia, mas uma reinterpretarão do que amam.
Com as celebrações de 30 anos da franquia em andamento, resolvi conversar com alguns desses estúdios para entender o que Pokémon representa para eles. E, sem surpresas, a resposta é: muito.
### Começos Humildes
Sandy Spink, desenvolvedora principal do jogo Moonstone Island, compartilhou uma lembrança marcante: “Ganhei um Game Boy Color roxo e Pokémon Blue no meu sexto aniversário, e aquele presente me colocou em um caminho que ainda sigo hoje.” Para ele, Pokémon parecia ter sido feito sob medida. Outra história similar veio de Alex Pratt, da Crema Games, que lembrou de escolher seu primeiro Pokémon, o Bulbasaur, como “uma decisão instantânea que moldou anos da minha vida”. Já Jay Baylis, da Cassette Beasts, destacou como o foco em capturar criaturas na série era perfeito para a mente de uma criança de seis anos.
Jochem Pouwels, que trabalhou com a TRAGsoft no jogo Coromon, também trouxe um momento curioso: sua primeira experiência com Pokémon foi jogando Pokémon Red em um idioma que não entendia. “Eu não fazia ideia do que os NPCs estavam dizendo, mas mesmo assim, a jogabilidade era tão envolvente que fui avançando no jogo na base da tentativa e erro.”
### O Poder Que Existe Dentro
Independentemente do estúdio, duas características surgiram com frequência nas conversas: as criaturas e os micro-recompensas. As criaturas, claro, sempre foram o coração da franquia. Baylis afirma que “o loop de coletar monstros como pets para batalhar é o melhor conceito de jogo de todos os tempos”. As pessoas adoram ver criaturas legais e escolher aquelas que mais combinam com suas personalidades, além de comparar suas escolhas com os amigos.
E não para por aí. A equipe da LEAP Game Studios, que criou o roguelike Dicefolk, ressaltou como os jogos sempre te provocam com novos Pokémon através do sistema de combate. “O fato de que os Pokémon podem ser tanto aliados quanto oponentes cria um incentivo natural para explorar e experimentar durante as batalhas”, explicou Luis Wong, cofundador do estúdio.
Outro ponto interessante é o sistema de recompensas sutis, que os desenvolvedores notam com um olhar mais atento. Essas recompensas aparecem de várias formas, como o nível da equipe e XP, proporcionando uma sensação de progresso a cada batalha. Spink comenta: “Pokémon usa a clássica mecânica de ‘número subindo’, que é tão satisfatória em RPGs”.
Até mesmo a simples ação de andar pela grama alta pode resultar em novas descobertas, já que os jogos mostram os Pokémon que você pode querer adicionar à sua equipe durante a exploração. JVemon, desenvolvedor principal de Nexomon, descreveu isso como uma “máquina caça-níqueis de possibilidades”. Essa “ritmo incrivelmente satisfatório de micro-recompensas” faz com que cada jogador viva a experiência de uma forma única, algo que os desenvolvedores veem como o Santo Graal do desenvolvimento.
### Você Me Ensina e Eu Te Ensino
Todos conhecemos bem o sistema de Pokémon, então fui curioso saber como esses desenvolvedores escolhem quais mecânicas incluir em seus jogos inspirados. Tom Coxon, da Bytten Studio, disse: “Nunca senti que Pokémon era a única forma de um RPG de coleção de monstros”. Ele acredita que ainda há muitas avenidas não exploradas nesse espaço de design.
Para a equipe de Cassette Beasts, a diferenciação veio na transformação em diferentes criaturas para batalhar, em vez de simplesmente coletá-las. Spink, por outro lado, decidiu deixar de lado o sistema de batalha. “Eu mantive os bichinhos fofos e abandonei as batalhas, pois sempre achei que eram repetitivas. Usando cartas para os ataques, cada rodada se torna um pequeno quebra-cabeça a ser resolvido.”
Outros adotaram uma abordagem mais direta. Guillermo Andrades, cofundador da Crema, contou que no início do desenvolvimento de Temtem, queriam criar uma homenagem quase idêntica a Pokémon. Contudo, perceberam que essa consistência de jogabilidade poderia limitar a inovação.
### O Que Vem Por Aí?
Ao perguntar sobre suas esperanças para o futuro de Pokémon, muitos ainda se consideram fãs, mas não deixaram que a nostalgia os guiasse totalmente. Spink, por exemplo, gostaria que a Game Freak tivesse mais tempo para criar algo incrível, como um “Breath of the Wild” da franquia. A equipe de Dicefolk espera que as futuras entregas cresçam ainda mais, assim como a sensação de unicidade que proporcionaram.
Por outro lado, alguns desenvolvedores desejam um retorno às raízes. Pouwels, por exemplo, gostaria de ver um projeto de paixão para Pokémon, algo como Sonic Mania foi para a série Sonic. Já Coxon gostaria de ver a franquia recuperar um pouco do mistério e até mesmo do leve horror que os primeiros jogos tinham.
Parece que a Game Freak está em um ponto de virada enquanto nos aproximamos da próxima geração. A evolução de Scarlet & Violet trouxe grandes mudanças, mas também gerou preocupações sobre a falta de polimento e questões de desempenho. De qualquer forma, será interessante ver como a próxima geração de desenvolvedores absorverá tudo isso. Pokémon e suas criaturas não vão a lugar nenhum, e os jogos inspirados na franquia certamente continuarão a surgir.
