Análise de Constance no eShop do Switch

Em um mundo onde os jogos independentes estão cada vez mais explorando temas como a saúde mental, a ideia de um Metroidvania que aborda esse assunto pode parecer um pouco clichê. Nos últimos anos, títulos como Hollow Knight e Ori conquistaram diversos fãs, trazendo personagens que lidam com suas jornadas internas de forma bastante criativa. Constance se inspira nessas obras, mas traz sua própria mensagem, mesmo sem reinventar completamente a roda.

O jogo nos apresenta Constance, que vive uma realidade sufocante e busca refúgio em um reino de fantasia criado pela sua própria mente, onde tanto as belezas quanto os horrores se manifestam. À medida que jogamos, somos levados a vislumbrar sua verdadeira realidade, cheia de memórias de prazos estressantes no trabalho, relações negligenciadas e a pressão do cotidiano.

Entretanto, a primeira hora de jogo pode deixar o jogador um tanto apreensivo. Apesar de o estilo de arte em 2D, todo feito à mão, ser deslumbrante, e as animações de Constance serem fluidas e encantadoras, as semelhanças com Hollow Knight podem ser difíceis de ignorar. Algumas mecânicas, como alavancas e elevadores, lembram muito o trabalho da Team Cherry, e isso pode fazer com que os jogadores façam comparações automáticas. Mas, conforme você avança, a verdadeira essência de Constance começa a brilhar — o jogo realmente exige sua atenção.

Diferente de muitos jogos do gênero, onde você pode passar por partes difíceis com facilidade após já ter conseguido, Constance não te dá essa moleza. Se você subestimar um inimigo ou uma seção desafiadora, prepare-se para as consequências. Isso se encaixa perfeitamente nos temas do jogo. Nos primeiros momentos, somos colocados na pele da protagonista, que vê sua tela de computador cheia de e-mails e mensagens, fazendo com que ela mergulhe nesse mundo de fantasia. Se o jogo é a sua fuga da realidade, faz sentido que seja um lugar onde ela só precisa se concentrar em uma única tarefa.

A mecânica do jogo pode não trazer grandes novidades para os fãs de Metroidvania, mas a execução é tão bem feita que torna a experiência divertida. Constance usa um pincel como arma, o que se conecta com seu trabalho de artista e proporciona animações bem satisfatórias. Ao dar um dash no chão, por exemplo, ela mergulha em uma poça de tinta roxa, criando um efeito visual bem interessante. O jogo também apresenta um medidor de tinta, que determina quantas habilidades especiais ela pode usar antes que a cor se esgote de seu cabelo e do pincel.

Se você utilizar as habilidades de tinta, sua saúde diminui, o que traz uma camada estratégica ao combate, especialmente em lutas contra chefes. Alguns inimigos precisam ser derrotados com o golpe “Paint Stab”, que, por sua vez, recupera sua saúde ao ser utilizado. Isso te faz pensar se é melhor esquivar ou atacar, criando uma dinâmica interessante nas batalhas.

Falando em chefes, as lutas variam de repetitivas a gloriosas. Alguns, como o High Patia da Academia Astral, não exploram muito o potencial do poder de impulso do cenário, mas são visualmente impressionantes. Outros, como Cornelis, exigem um uso mais criativo de habilidades, o que é um ponto positivo. Contudo, a repetição pode ser um problema, e seria interessante ver mais fases ou variações nas lutas.

A atmosfera de Constance é outro ponto forte do jogo. Ele traz uma mistura da solidão clássica de Metroid com a sensação de que o mundo é habitado, fazendo tudo parecer mais vivo. Cada área é bem distinta, e a área do “Chaotic Carnival” se destaca com suas cores laranja e uma trilha sonora que lembra um circo, tornando a exploração memorável. Os locais de salvamento, onde você vê a protagonista meditar e flutuar, encaixam bem na ideia de fuga desse mundo.

As máquinas que habitam o jogo, tanto amigáveis quanto hostis, são uma forma sutil de mostrar como a tecnologia contribui para nossa sobrecarga de estímulos, mas também como é uma ferramenta indispensável. As telas de morte são acompanhadas da frase “perdido em pensamentos”, e as memórias de Constance aparecem em forma de minijogos, que trazem um alívio sem pesar na jogabilidade.

Joguei Constance no Switch 2 e a experiência foi bem fluida, tanto no modo portátil quanto no modo dock. A tela do Switch 2 combina perfeitamente com as cores vibrantes do jogo. Há modos de Performance e Qualidade disponíveis, mas o modo Balance já é suficiente para garantir uma boa aparência e desempenho. Testei também no Switch original e a performance se manteve boa, mesmo que a qualidade da tela não seja a mesma.

Constance é um exemplo de como é desafiador trazer ideias clássicas e oferecer uma nova perspectiva. O jogo tem algo importante a dizer e faz isso de forma eficiente. Existem alguns problemas nas mecânicas e nas lutas contra chefes, mas isso não impede que a experiência seja válida. É um lembrete necessário sobre as alegrias da concentração em um mundo tão sobrecarregado de estímulos. Para os fãs de Metroidvania, é uma recomendação fácil, e até quem não é tão fã do gênero pode se encantar com suas visuais e conceitos.